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Traição ? Pode ser, e daí ?

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(revue “Global”, Brésil)Texte publié dans le Journal de l’Archipel des Revues (novembre 2003)Traição ! Diz-se. O Lula é um traidor ! É preciso reconhecer, e louvar, a coerência daqueles que, ao se opor, estão sendo coerentes com suas posições de sempre. É preciso prezar a coerência !
Não entendo esses slogans que parecem ganhar espaço em nosso cotidiano. Por que um elogio, genérico, à coerência ? A coerência em si não é boa nem má,aliás é preciso bastante incoerência para criar algo de novo, bem como é preciso bastante coerência com certos ideais para chegar ao ponto de torturar alguém em nome deles.

O mesmo vale para pensar a traição : será que não teria sido mais interessante que o algoz, neste momento, tivesse traído seus ideais ? Coerência e traição são, portanto, nomes vazios aos quais se atribui um valor, e como tal, não passam de moralismo, às vezes vão às vezes de má-fé.

O que está em jogo, portanto, por trás dessas denominações dissuasivas? A defesa da ideologia. Façamos, portanto, a sua crítica e coloquemos, claramente, a sua discussão. Para falar de ideologia, precisamos falar de história. Podemos pensar que as coisas que acontecem – as revoluções, as mudanças, as inovações – provêm da história? É claro que elas têm uma história, mas esta só pode ser escrita depois. No momento da inovação, a história fornece apenas o conjunto das condições das quais nos desviamos para criar algo de novo. A criação é, portanto, um certo tipo de traição.

Não pretendemos, com essas considerações, cair na simplificação oposta e dizer que o Governo Lula é revolucionário. Gostaríamos apenas de retirar as fumaças de indefinições e ideologias para analisá-lo sem hipocrisias: o Governo Lula é real! Sendo assim, se por um lado ele está sujeito a constrangimentos reais, por outro lado é a suposição de um real aberto que pode garantir as suas possibilidades de realização. A aceitação do real como constrição está funcionando de modo positivo, mas as possibilidades do real como inovação, nem tanto. Mas este não é um problema de falta de ideologia, ao contrário!

A ideologia está sempre sujeita a uma transcendência qualquer : « um outro Mundo » ;. Onde reinará a justiça, a paz, a liberdade… mais slogans ! Vamos cair na real: só há um mundo, esse ! E não sabemos qual a saída para a sua terrível injustiça, mas deve haver alguma, e não é com moralismos, nem com ideologia, que vamos encontrá-la. Até porque, não se trata de encontrá-la, mas de construí-la. E para construí-la é preciso saber com quem ? Quais são os sujeitos da mudança, quais serão os sujeitos dessa revolução, ou dessas múltiplas revoluções realistas ? A vanguarda ? A inteligentsia nacional ?

Os partidos ? Sinto, mas acho que não. Um governo nunca fará a revolução, mas pode ajudar no fortalecimento dos sujeitos da revolução, seja ela o que for.

Mas para isso, é preciso que estas pessoas comam, tenham renda, estudem, urgente! Neste sentido, os programas de transferência de renda são bem-vindos, e o melhor seria mesmo uma renda universal garantida para todos. Mas por outro lado, para que estas não sejam apenas melhorias individuais, a radicalização da democracia é fundamental.

Para isso, poderia se começar por democratizar a máquina estatal, tornando-a mais ágil, mais igualitária, mais participativa. Não reproduzindo, por outros meios, o aparelhamento secular e o vício estamentário do Estado Brasileiro. É nesse ponto que o governo Lula está falhando. Não é preciso fazer acordos com a Unesco, nem chamar grandes especialistas. Ao contrário, há inúmeros núcleos de pesquisa e de ação que agem e trabalham há anos sobre temas que são extremamente úteis ao governo e que precisam ser valorizados. Mas democraticamente, sem novos lobbies que têm a mesma estrutura dos da direita, mas com atores de esquerda. Sem reproduzir os vícios do Estado, para conseguir se impor, um pouco mais, em relação ao mercado.

Não precisa de ideologia pra isso, mas de um rompimento produtivo e positivo com a história do Brasil, rompimento do qual a eleição de um torneiro mecânico foi, sem dúvida, o primeiro passo.